Vilão do Conhaque - Um Romance de Máfia

Vilão do Conhaque - Um Romance de Máfia

nicolefox859 · Concluído · 216.7k Palavras

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Introdução

Um defeito no figurino.
Duas pessoas que não deveriam ficar juntas.
Três palavras horríveis: “Seja minha esposa”.

Todo mundo está nesta festa para se casar com o anfitrião.
Eu só estou aqui até conseguir uma carona para casa.
Quando meu vestido rasga no defeito de figurino mais mal cronometrado do mundo,
eu vou procurar um lugar quieto para consertar.

Então eu estou lá, só de salto alto, quando,
como a sorte gosta de fazer comigo, a porta se abre…

E o homem da noite entra.

Queria poder dizer que eu disfarcei.
Mas faz muuuito tempo que alguém me viu como vim ao mundo…
Muito menos o homem mais gostoso que já vi na vida.

Tudo o que eu quero é consertar meu vestido, bater os calcanhares três vezes e voltar para o meu sofá, de pantufas bem fofinhas.
Mas Ivan tem outras ideias.

Ele já decidiu quem vai levar ao altar…
E eu não tenho escolha a não ser dizer: “Aceito.”

Capítulo 1

VILÃO DO CONHAQUE

Um acidente com o figurino.

Duas pessoas que não combinam.

Três palavras horríveis: “Seja minha esposa.”

Todo mundo nesta festa está aqui para se casar com o anfitrião.

Eu só estou aqui até conseguir uma carona para casa.

Quando meu vestido rasga no pior acidente de figurino do mundo, na pior hora possível,

vou procurar um lugar silencioso para consertar.

Então estou ali, sem nada além dos meus saltos, quando,

para variar, a porta se abre…

E o homem da noite entra.

Queria poder dizer que agi naturalmente.

Mas faz muuuito tempo que alguém me vê como vim ao mundo…

Ainda mais o homem mais gostoso em que já pus os olhos.

Tudo o que eu quero é consertar meu vestido, bater os calcanhares três vezes e voltar pro meu sofá, de pantufas felpudas.

Mas Ivan tem outras ideias.

Ele já decidiu quem vai levar ao altar…

E eu não tenho escolha a não ser dizer “sim”.

VILÃO DO CONHAQUE é o Livro Um do dueto Pushkin Bratva. A história de Ivan e Cora termina no Livro Dois, VIXEN DO CONHAQUE!

1

CORA

Não acredito que deixei minhas amigas me arrastarem pra fora hoje à noite.

Depois de um turno interminável servindo mesas no diner, distribuindo enchiladas mornas pra idosos ingratos que dão gorjeta como se ainda fosse a Grande Depressão, a última coisa que eu quero é colocar um vestido chique e ir a uma festa.

Mas Francia e Jorden, minhas colegas garçonetes do Quintaño’s, insistiram. E, pra piorar, Francia está se recusando a deixar eu usar qualquer calcinha com este vestido que estou pegando emprestado dela.

“Marcar calcinha com um Vera Wang é, tipo, um pecado contra Deus”, ela diz, soltando um arquejo horrorizado, como se eu fosse direto pro inferno só por sugerir uma coisa dessas. “Em hipótese nenhuma você vai usar. Só por cima do meu cadáver, porra.”

Eu nem chego a discutir, porque quase imediatamente depois ela fica enjoada e corre pro banheiro pra vomitar. Eu teria dado a noite por encerrada, mas Jorden, a festeira, não deixa nada impedir que ela fique completamente mamada.

“Ah, não. A Francia pegou uma virose, mas eu peguei foi a virose da dança”, ela anuncia. “Eu vou sair e vou ficar bêbada. E você, minha adorável companheira, vai comigo.”

Droga.

Então eu e Jorden chamamos um Uber do apartamento depois de terminar de nos arrumar. No começo, a gente vai balançando ao som da música, rindo, nos sentindo como princesas da Disney a caminho do baile. Nós duas fizemos turno dobrado no diner todos os dias desta semana pra poder esbanjar numa rara noite de saída, então estamos determinadas a aproveitar.

Diversão. Essa é a missão.

Mas quanto mais a gente se aproxima, mais enjoada eu fico.

E não é porque a gripe da Francia era contagiosa. É a fila de carros estacionados ao longo da estrada que primeiro me dá aquela sensação horrível de estômago despencando. Mercedes G-Wagon, Rolls-Royce e Lamborghini até onde a vista alcança.

Isso me lembra demais da minha vida antiga.

Eu fugi daquela vida por um bom motivo. Eu odiava a condescendência, a falsidade, tudo coberto por uma camada de brilho pegajoso, como gosma de glitter. Quando fui embora, jurei que nunca mais voltaria para lugares assim.

E, ainda assim, aqui estou eu. Que sorte a minha.

A sensação só piora à medida que nos aproximamos da casa. Mas aí viramos a esquina… e lá está.

A mansão está iluminada como uma joia na noite. Tudo de vidro. Gente bonita relaxa por toda parte: nos degraus, nos cômodos, em grupinhos de quatro e cinco espalhados pelo gramado dos fundos.

— A gente só fica até meia-noite, Jor — eu aviso minha amiga enquanto cambaleamos escada acima de salto alto. — Amanhã eu abro o diner e não quero estar de ressaca pro corre da manhã de sábado.

— Tá, tá, tanto faz — ela retruca, cheia de atitude. — Na cama até meia-noite ou a Cora, a Exploradora, vira abóbora. Entendido.

Então ela enfia o braço no meu e nos leva até a frente do segurança. — Oi — ela ronrona.

Ele olha pra nós por cima do prancheta. — Nomes?

Jorden me cutuca com força nas costelas. — Fala — ela sibila entre dentes. — Como a gente ensaiou.

Eu suspiro. — Francia Delacour e acompanhante. — A gente ensaiou essa mentirinha branca tantas vezes no caminho que ela sai mais ou menos natural.

O segurança demora um bom tempo examinando a lista antes de assentir e se afastar. — Aproveitem a noite, senhoritas.

E então atravessamos a porta e entramos em outro universo.

Tudo brilha em branco e dourado, com toques ousados de mármore preto onde você menos espera. Tem uma fonte de verdade bem no centro da sala de estar e eu tenho quase certeza de que vi um pavão andando pelo jardim lá na frente.

— Isso aqui é uma casa ou um palácio? — Jorden pergunta, boquiaberta.

— Pergunta melhor — eu respondo. — Se a Francia consegue entrar em festas assim, que diabos ela está fazendo servindo mesa no Quintaño’s com a gente?

Não é a única coisa na Francia que não faz muito sentido. Um dia, por exemplo, ela apareceu do nada no trabalho com uma pulseira de tênis da Cartier, de diamantes. Quando perguntei de onde tinha tirado aquilo, ela só riu, sorriu e mudou de assunto — e ela tinha sumido da próxima vez que eu a vi. Ela nunca convida a gente pro apartamento dela; quando a gente se encontra, é na minha casa ou na da Jorden. Pra falar a verdade, eu nem tenho certeza de que parte da cidade ela mora.

— Champanhe, senhoritas? — diz uma voz à minha esquerda. Eu me viro e vejo um garçom nos oferecendo uma seleção de taças cintilantes de champanhe numa bandeja de prata.

— Sim, por favor! — Jorden canta. Eu pego uma; ela apanha duas. — Uma pra mim e outra pra minha, ahn… outra amiga.

O homem inclina a cabeça e se afasta sem dizer mais nada. Jorden vira a primeira taça de uma vez só e apoia o vidro vazio num pedestal ali perto.

— Com sede? — eu provoco.

— Amiga, eu tenho, tipo, uma noite por ano pra sair e me divertir. Então eu vou me divertir. A mamãe merece. E — ela acrescenta, batendo o quadril no meu — você também.

— Aham. Diversão. Total.

Mas aquela sensação embrulhando o estômago ainda está bem viva, bem ali no meio da minha barriga.

A gente perambula pela casa, beliscando canapés de bandejas que circulam e boquiabertas com a arquitetura absurda. Também passamos por mais grupos de gente, espalhados por toda superfície, conversando com intensidade.

Alguém me disse uma vez que atores de fundo, em filmes, aprendem a sussurrar “melancia, melancia, melancia” sem parar para fingir que estão tendo conversas de verdade. É assim que isso aqui parece.

Só que, em vez de sussurrarem “melancia”, eles sussurram duas palavras. Leva um tempo até eu conseguir distingui-las, mas, quando consigo, há algo na frase que me faz sentir como se uma brisa gelada passasse pela minha pele.

Ivan Pushkin.

De novo e de novo, aonde quer que a gente vá, é isso que eu ouço.

Ivan Pushkin.

Ivan Pushkin.

Surge de cada grupo por onde passamos, sem falhar uma única vez. No ar, também há uma espécie de inquietação arisca. Toda mulher entre dezoito e quarenta anos fica checando por cima do ombro como se soubesse de alguma coisa que a gente não sabe. Como se algo importante estivesse para chegar e elas quisessem estar no melhor aspecto quando isso acontecesse.

Acabamos saindo para o gramado nos fundos. Ele está enfeitado com luzinhas que se ramificam a partir de um palco no extremo oposto. Uma banda de jazz toca uma música refinada para uma multidão de gente empenhada em parecer descolada justamente ao ignorá-la. Ninguém dança em festas assim.

Correção: uma pessoa dança em festas assim.

— Ih, lá vem — alerta Jorden com um sorriso maldoso. Ela aponta para os próprios quadris, que estão começando a rebolar de um lado para o outro como se tivessem vida própria.

— Jor...

— Ih, lá vem! — ela repete, numa gargalhada satisfeita. — Não consigo evitar, Cora! É… eu… Eles estão vivooos!

— A gente está aqui faz vinte minutos e você já tá bêbada?

— Não — Jorden rebate, — eu tô me divertindo. Você devia tentar um dia desses.

Eu amo ela, de verdade — só não consigo acompanhar essa energia o tempo todo. Definitivamente não sem uma quantidade bem maior de álcool em mim.

Ela, por outro lado, não precisa de uma gota sequer. Mesmo sóbria como um juiz, Jorden é nota dez. Ela ri alto, ama alto, vive alto.

É um milagre, sinceramente, porque ela vem se matando para conseguir pagar as contas desde que eu a conheço. Foi criada por uma mãe solo, com vale-alimentação, trabalhando em lanchonetes como a Quintaño’s muito antes de ter idade suficiente para isso ser legal.

Ela tem razão: ela merece um descanso. A vida é difícil.

— Vai lá dançar — eu digo, sem jeito. — Vou achar outra bebida primeiro pra conseguir te acompanhar.

Ela dá de ombros e joga o cabelo por cima do ombro. — Tá. Mas, se quando você voltar me encontrar esfregando em algum novinho gostoso, o prejuízo vai ser seu!

Eu sorrio e beijo a bochecha dela. — Espero te encontrar esfregando em dois.

— Não me provoca, garota. Capaz de eu fazer mesmo. Capaz de eu fazer mesmo.

Rindo, a gente se separa, e eu volto para dentro da casa à procura de um banheiro. Eu fiz cara de coragem enquanto a Jorden estava olhando, mas, assim que encontro um banheiro, fecho a porta atrás de mim, tranco e puxo um enorme fôlego trêmulo.

Isso é demais. Foi uma péssima ideia vir aqui. Voltar para um lugar assim, perto de gente assim… Eu virei as costas para esse mundo. Nunca quis voltar.

Assim que eu sair daqui, vou dobrar a aposta nesse juramento.

Quando levo a mão à nuca, a palma se afasta encharcada de suor frio.

— Meia-noite — eu juro para o meu reflexo no espelho. — Só mais algumas horas, e então o relógio vai bater meia-noite e você vai poder dar adeus a essas pessoas para sempre.

Meia-noite.

Estamos quase lá.

Eu lavo o suor da nuca e saio do banheiro, pronta para encarar o resto da festa. Pelas portas duplas à distância, pego um vislumbre rápido de Jorden no meio da multidão. Mas, antes que eu consiga dar um passo na direção dela, sinto uma mão inesperada na minha cintura.

E uma voz vem junto.

— Olá, linda.

Sigo o som da saudação arrastada até um homem amarrotado, com a testa úmida. Ele balança de um lado para o outro.

— Oi. — Dou um sorriso tenso e recuo em direção à parede.

— Eu vim porque você parece sozinha. — As palavras dele saem ofegantes, chegando numa nuvem de baforada alcoólica. — Pensei em te fazer companhia.

Eu enrugo o nariz.

— Ah, que gentil da sua parte. Mas eu estou bem. Mesmo assim, obrigada!

Se ele entende o “tchau” implícito, não demonstra. Ele dá mais um passo, a barriga pressionando contra mim.

— Você tá aqui com quem?

— Com o meu namorado — minto, por reflexo. — Ele foi pegar uma bebida pra mim agora.

Ele hesita por um segundo e depois solta uma gargalhada.

— Conversa fiada.

Isso me desmonta, principalmente porque ele tem tanta certeza.

— Eu não… quer dizer… como você saberia?

— Porque você tá aqui pra encontrar ele. Igual a todo mundo. — Ele diz com a mesma firmeza. Como se soubesse de algo que eu não sei.

Eu tenho um monte de perguntas, mas nenhuma que eu queira sentar e discutir com esse sujeito encantador. Tento me esgueirar por ele.

— Eu só vou…

— Ele não é essas coisas todas, não, sabia? — Ele se move junto comigo, bloqueando meu caminho. — Todo mundo tá aqui pelo Ivan, mas eu te mostro o que um homem de verdade pode fazer por você. Comigo não tem fila.

— Nossa, imagino por quê — resmungo para mim mesma. Para ele, digo: — Eu literalmente não faço ideia do que você está falando. Provavelmente você também não. Você tá bêbado. Então, se você pudesse me deixar passar…

De repente, a mão suada e carnuda dele estala na minha bunda.

Ao longe, ouço os fios do meu vestido arrebentando. Mas é como prestar atenção numa torneira pingando quando a sua casa está pegando fogo. Eu tenho problemas maiores pra resolver.

Qualquer pessoa que já trabalhou no ramo de alimentação sabe que cliente faz coisas de cair o queixo. Homem casado deixa número de telefone no comprovante; vovô com cara de bonzinho belisca sua bunda; e as esposas sibilam que você é uma puta por entre os dentes.

E qualquer pessoa que já ficou presa trabalhando nesse ramo, mesmo quando já está farta de tudo isso, sabe que existem duas escolhas: ou você engole e continua com o emprego — ou vive a fantasia de todo garçom e mostra pros filhos da puta que passaram do limite que mexeram com a pessoa errada.

Hoje, eu sou a pessoa errada.

E esse é o filho da puta que passou do limite.

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Mais uma obra feita pro mim, espero que gostem.

Um beijo Nat.