
Sangue & Gelo - O Império dos Herdeiros
sandraferreira050710 · Atualizando · 42.8k Palavras
Introdução
Ele decidiu que ela seria a mãe do seu herdeiro.
Leonora Giordano tinha um plano simples, infiltrar-se na vida de Leonardo De Luca e destruí-lo por dentro.
O que ela não sabia é que o homem que jurou vingar seria o mesmo que decidiria seu destino, e o de um filho que ela nunca pediu para ter.
Presa numa mansão onde o luxo esconde o perigo, Leonora aprende que, para o Don de Milão, ela é apenas um meio para um fim, e que, para o Conselho que ele responde, ela é descartável.
Antes que seja tarde demais, Leonora faz a única coisa que lhe resta, desaparece.
Forja a própria morte e foge para o mais longe que conseguir.
Mas há coisas que nem a morte fingida consegue esconder para sempre, e, algures, num lugar muito mais frio do que Milão, alguém já começou a prestar atenção.
Porque o sangue determina a linhagem, mas nem todo herdeiro pertence apenas a um único homem.
Capítulo 1
Sangue & Gelo
O Império dos Herdeiros
PRÓLOGO
Dizem que toda mulher se lembra do dia em que deixou de ter medo da morte.
O meu foi uma terça-feira, às três da manhã, com as mãos tremendo sobre um teclado que não me pertencia, invadindo um sistema que eu não deveria conseguir quebrar, em busca de provas que talvez nunca existissem.
Eu não sabia, naquela noite, que a pessoa que eu mais temia no mundo já estava parada atrás de mim, há minutos, apenas observando.
Também não sabia, e isso é a parte que ainda hoje me tira o sono, anos depois, quando fecho os olhos e ainda sinto o cheiro daquele escritório, que o homem que estava prestes a destruir a minha vida não seria o único a decidir o meu destino.
Existe uma regra não escrita entre os homens que governam impérios como aquele, nunca se apaixone pela sua propriedade.
Leonardo De Luca quebrou essa regra sem sequer perceber que a estava quebrando, e, em algum lugar muito mais frio, muito mais longe, outro homem, um homem que eu ainda nem sabia que existia, estava prestes a cometer o mesmo erro, anos antes de ele bater na minha porta onde eu tinha fugido de tudo o que conhecia.
Ninguém me avisou, naquela terça-feira, que a minha vingança contra um Don acabaria despertando o interesse de um Czar.
Ninguém me disse que sobreviver a Milão seria fácil, comparado ao que viria depois.
Eu só sabia de uma coisa, enquanto a barra de progresso subia lentamente na tela e os meus dedos gelavam de medo, eu ia conseguir aquelas provas, custasse o que custasse.
Não sabia que o preço seria o resto da minha vida.
Nem que, no fim, valeria cada centavo.
Capítulo 1 - A Ameaça
Narrado por Leonora Giordano
O silêncio do escritório de Leonardo De Luca às três da manhã tinha um peso físico. Era como se as paredes de ébano e as janelas de vidro à prova de balas estivessem sugando todo o oxigênio de Milão, deixando-me apenas com o cheiro de couro novo e o zumbido elétrico do servidor que eu acabara de invadir.
Minhas mãos tremiam, o suor frio fazendo meus dedos escorregarem pelo teclado mecânico.
— Quase lá... por favor, carrega logo, porra — sussurrei para a tela, meus olhos fixos na barra de progresso que parecia zombar da minha urgência.
Oitenta por cento.
Eu estava há seis meses interpretando o papel da assistente pessoal perfeita. Seis meses sorrindo de forma submissa, agendando reuniões com políticos corruptos e aceitando o olhar gélido daquele homem como se ele fosse apenas um CEO exigente e não o carrasco que tinha o sangue da minha família nas mãos. Meu pai não era um santo, eu sabia disso, mas ele não merecia ter sido descartado como lixo.
Noventa e cinco por cento.
O clique seco de uma porta se fechando atrás de mim fez o meu coração parar, literalmente parar. Um estalo gelado percorreu minha espinha, e eu não precisei me virar para saber quem estava ali. O ar na sala mudou, ficou mais denso, mais perigoso.
— Você sempre foi a minha assistente mais eficiente, Leonora, mas essa sua dedicação noturna é... surpreendente.
A voz dele era um barítono suave, quase uma carícia, mas carregava a lâmina de uma guilhotina. Girei a cadeira devagar, o tablet escondido sob a minha coxa. Leonardo De Luca estava parado a poucos metros, encostado na moldura da porta com uma elegância que beirava o insulto.
Ele não usava o paletó, as mangas da camisa branca estavam dobradas, revelando os antebraços fortes e a tatuagem de uma coroa de espinhos que rodeava seu pulso.
Ele segurava um copo de cristal com dois dedos de uísque, mas seus olhos cinzas estavam fixos em mim. Não havia fúria neles, havia algo muito pior, diversão.
— Senhor De Luca... eu... — Minha voz falhou, presa no pavor.
— Poupe-me das desculpas patéticas de "esqueci meu celular" ou "precisava terminar um relatório" — ele disse, dando um passo em minha direção. Cada batida do sapato italiano dele no chão parecia um prego sendo martelado no meu caixão. — Eu sei exatamente quem você é, Leonora Giordano. Filha de Pietro Giordano, o homem que achou que poderia roubar da L'Eclisse e sair impune.
Senti o sangue fugir do meu rosto. Ele sabia, o tempo todo.
— Você... se você sabia, por que me contratou? — Perguntei, o desafio começando a queimar através do meu medo.
Leonardo parou na frente da mesa e tomou um gole lento da bebida, observando-me por cima do cristal.
— Porque eu gosto de manter meus inimigos onde eu possa vê-los e porque eu estava esperando o momento em que você se tornaria útil. — Ele se inclinou sobre a mesa, as mãos grandes apoiando-se no carvalho. — Você quer vingança, não é? Quer os nomes dos homens que puxaram o gatilho. Quer ver o meu império queimar.
— Eu quero justiça — sibilei.
— No meu mundo, justiça é uma palavra para os fracos que não podem pagar pela vingança. — Ele sorriu, um movimento cruel dos lábios. — Mas hoje, Leonora, eu não vou te matar por essa pequena invasão. Na verdade, eu vou te oferecer um negócio.
— Eu não faço negócios com monstros.
Leonardo largou o copo e, em um movimento rápido como o de uma víbora, agarrou meu pescoço. Não para me sufocar, mas para me obrigar a olhar para ele. Seus dedos eram quentes e fortes, uma promessa de domínio que me fez estremecer.
— Você vai aprender a medir as suas palavras, sua vadia insolente — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. — O Conselho da máfia está me pressionando. Eles querem estabilidade, querem um herdeiro para garantir que a linhagem De Luca continue, e eu decidi que você será a mãe desse herdeiro.
Eu congelei. A proposta era tão absurda, tão perversa, que levei alguns segundos para processar.
— Você enlouqueceu? Eu prefiro morrer a carregar um filho seu.
Ele soltou meu pescoço com um empurrão desdenhoso e caminhou até a janela, olhando para Milão como se fosse o dono do sol e da lua.
— Morte é um luxo que eu não vou te dar. Vamos falar sobre a sua tia, Sofia. Aquela mulher doce que vive em Palermo e que você sustenta com o bônus que eu te dou todo mês. — Ele se virou, e o brilho nos seus olhos era puro veneno. — Um telefonema meu, e a casa dela pega fogo com ela dentro. Um comando meu, e os crimes do seu pai, as provas de que ele era um pedófilo e um traidor que você tanto tenta esconder, serão entregues à polícia e à imprensa. O nome Giordano será arrastado na lama até que não sobre nada além de cinzas.
— Você não faria isso... — Minhas lágrimas começaram a cair, quentes e amargas.
— Eu sou um Don da máfia, Leonora, eu faço coisas muito piores antes do café da manhã. — Ele caminhou de volta para mim, parando tão perto que eu conseguia sentir o cheiro de álcool e perigo. — A proposta é simples, você se muda para a minha mansão, você vive sob as minhas regras. Você me dá um filho homem, saudável e forte. No momento em que ele nascer, eu apago o passado do seu pai, garanto a segurança da sua tia para o resto da vida e te dou a sua liberdade.
Ele não mencionou o que aconteceria se eu não desse um herdeiro. Ele não mencionou que eu seria apenas uma incubadora descartável, mas eu via a indiferença cruel no seu olhar. Eu era apenas um meio para um fim.
— Por que eu? — Perguntei. — Há centenas de mulheres que matariam para estar na sua cama, para ter o seu sobrenome.
Leonardo passou a mão pelo meu cabelo, um gesto que parecia um carinho, mas era uma reclamação de posse. Ele enrolou uma mecha nos dedos e puxou, forçando-me a olhar para cima.
— Porque eu quero o fogo que brilha em você. Porque eu quero que o meu filho tenha a inteligência de uma mulher que teve a audácia de tentar me derrubar e, principalmente... — ele se inclinou e lambeu uma lágrima que escorria pelo meu rosto, um gesto tão íntimo e degradante que me fez estremecer de repulsa e um prazer sombrio que eu odiava sentir — ...porque eu quero ver o momento em que eu vou finalmente quebrar esse seu orgulho maldito entre os meus lençóis.
Eu estava presa, não havia saída. Se eu fugisse, minha tia morria, se eu ficasse e não aceitasse, ele me destruiria. Leonardo De Luca tinha armado a armadilha perfeita e eu tinha caminhado direto para o centro dela.
— Eu odeio você — sussurrei, as palavras carregadas de todo o veneno da minha alma.
— O seu ódio não me serve de nada, Leonora, o seu útero, sim. — Ele soltou meu cabelo e caminhou até a porta, parando antes de sair. — Você tem cinco minutos para pegar as suas coisas. O meu motorista está esperando lá embaixo. De agora em diante, você não é mais só minha assistente. Você é minha propriedade.
Ele saiu sem olhar para trás, deixando-me desfeita naquela cadeira de couro. Olhei para a tela do computador, a barra de progresso dizia "Concluído", mas aqueles dados não valiam mais nada. Eu não era mais a caçadora, eu era a presa e o predador acabara de decidir que a temporada de caça estava aberta.
Limpei o rosto com as costas da mão, sentindo o peso da minha nova realidade. Eu entrara naquela empresa para destruir Leonardo De Luca, mas agora, eu teria que carregar a própria semente dele para sobreviver.
Levantei-me, as pernas vacilantes, e caminhei em direção à porta. A vingança teria que esperar, agora, a guerra era pela minha sobrevivência e pela vida do meu filho... um filho que eu já odiava antes mesmo de existir.
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