A Filha da Minha Madrasta

A Filha da Minha Madrasta

Déborah Natália · Concluído · 126.0k Palavras

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Introdução

~

Um jovem meio revoltado por não aceitar a morte da mãe nem o novo relacionamento do pai.

Ela doce e dedicada.

Será que o que é proibido realmente vale a pena?

Capítulo 1

HARRY NARRANDO

— Hoje a filha da Luiza chega. Por favor, comporte-se.

Olhei para o meu pai, que parecia bastante animado com aquela novidade. Cruzei os braços e soltei uma risada sem humor.

— Ah, claro! A intocável está chegando. Não se preocupe, não faço questão nenhuma de ficar em casa.

— Harry, será que você consegue passar um único dia sem fazer comentários desagradáveis?

— Depende. Você consegue passar um dia sem tentar controlar minha vida?

Meu pai suspirou, claramente sem paciência para minhas provocações. Eu também não tinha disposição para aquela conversa.

Meu nome é Harry, tenho dezenove anos e, desde que perdi minha mãe, há três anos, minha vida nunca mais foi a mesma.

Ainda dói pensar nela. Dói entrar em casa e não encontrar seu sorriso, ouvir sua voz ou receber aquele abraço que sempre conseguia melhorar qualquer dia ruim.

Meu pai, entretanto, parece ter encontrado uma maneira de seguir em frente. Começou um relacionamento com Luiza e agora está prestes a receber a filha dela em nossa casa.

Sei que ele tem direito de reconstruir a própria vida, mas isso não significa que eu precise aceitar tudo de braços abertos.

Pelo que me contou, Cecília morava com a avó, que faleceu recentemente. Agora, sem ter outro lugar para ficar, virá morar conosco.

E, pelo visto, já chegaram acompanhadas de uma lista interminável de regras.

Aposto que é mais uma garota mimada, acostumada a conseguir tudo o que deseja.

Não tenho paciência para isso.

Atualmente, faço faculdade de Engenharia, uma das poucas coisas que realmente me dão prazer. Gosto de estudar, desenvolver projetos e imaginar o futuro que quero construir.

Um dia, assumirei a empresa que minha mãe administrava. Depois disso, pretendo conquistar minha independência e deixar esta casa para trás.

Era tudo o que eu queria.

Já era fim de tarde quando voltei para casa. Assim que entrei, percebi uma movimentação incomum na sala de jantar. A governanta e as funcionárias organizavam a mesa com uma quantidade absurda de louças e talheres.

Aquilo parecia a preparação para uma recepção de gala.

Suspirei.

— Só pode ser brincadeira...

Não estava com disposição para conhecer ninguém, muito menos participar de um jantar cheio de conversas falsas e sorrisos ensaiados.

Subi diretamente para o meu quarto. Ao passar pelo cômodo ao lado, percebi que a porta estava aberta. O ambiente havia sido completamente organizado, e algumas malas estavam posicionadas perto da cama.

Aparentemente, o quarto da nova integrante da família estava pronto.

Nem sequer parei para olhar direito.

Entrei no meu quarto, fechei a porta e me joguei na cama.

Naquela noite, minha presença na mesa de jantar seria dispensável.

Pelo menos era o que eu esperava.

CECÍLIA NARRANDO

Morar com minha mãe depois de tanto tempo seria, no mínimo, desafiador.

Não que eu não gostasse dela. Pelo contrário. Apenas havíamos passado muitos anos vivendo separadas, e eu estava acostumada à minha rotina com minha avó.

Depois que ela faleceu, muita coisa mudou.

Minha mãe insistiu para que eu me mudasse para sua nova casa, e, apesar da saudade que ainda carregava, decidi aceitar.

Quando cheguei, fiquei impressionada.

A casa era enorme, luxuosa e tinha uma decoração que parecia ter saído de uma revista de arquitetura. Tudo estava impecavelmente organizado.

Minha mãe fez questão de me mostrar cada cômodo e, antes mesmo de terminarmos o passeio, resolveu me dar alguns avisos.

— Cecília, preciso conversar com você sobre uma coisa.

— Lá vem...

Ela me lançou um olhar sério.

— Não começa. Quero apenas que você tenha cuidado com Harry.

— Harry?

— O filho do meu marido. Ele é um rapaz complicado, um pouco revoltado e não está muito satisfeito com as mudanças na família. Prefiro que você evite problemas.

— Mas eu nem conheço o garoto, mãe.

— Justamente. Por enquanto, mantenha uma certa distância.

Achei aquela recomendação um tanto estranha, mas preferi não discutir.

Naquela noite, haveria um jantar para alguns amigos próximos da família. Confesso que minha vontade era tomar um banho, colocar uma roupa confortável e dormir até o dia seguinte.

Entretanto, minha mãe não aceitou nenhuma desculpa.

E lá estava eu, pronta para conhecer os convidados.

— Você está linda, minha filha! — ela comentou, ajeitando uma mecha do meu cabelo. — Tenho certeza de que algum dos filhos dos nossos amigos vai ficar encantado por você.

Revirei os olhos, sorrindo.

— Mãe, não tenho interesse em namorar ninguém agora. Estou muito bem assim.

— Ah, minha princesa, você ainda tem muito para aproveitar. Não precisa pensar em casamento, mas também não precisa se esconder do mundo.

— Você é impossível!

Ela riu e segurou minha mão.

— Venha. Vou apresentar você aos convidados. E não se preocupe, Harry não vai descer.

Franzi a testa.

— Quem é Harry mesmo?

— O filho do meu marido. Ele não é muito sociável, então não leve para o lado pessoal se não fizer questão de conversar.

Aquela explicação despertou ainda mais minha curiosidade.

Como alguém podia ser tão fechado a ponto de evitar até mesmo um jantar em família?

O jantar começou tranquilamente. Os convidados eram educados, e alguns rapazes fizeram questão de puxar conversa comigo. Um deles, inclusive, parecia determinado a conseguir meu número de telefone.

Apesar da educação, eu já estava cansada de tantos elogios e perguntas.

Depois de um tempo, pedi licença e subi.

Ao passar pelo quarto ao lado do meu, percebi que a porta estava entreaberta.

Não sei se foi curiosidade ou simples distração, mas acabei olhando.

Havia um rapaz deitado na cama, usando apenas uma bermuda e com um livro nas mãos. Os fones de ouvido pareciam isolá-lo completamente do restante da casa.

Era bonito, tinha os cabelos escuros e um físico atlético. Sua expressão concentrada dava a impressão de que nada naquele mundo conseguiria tirar sua atenção da leitura.

Fiquei alguns segundos observando antes de perceber que estava sendo indiscreta.

Continuei pelo corredor e entrei no meu quarto.

Mas a imagem daquele desconhecido permaneceu na minha cabeça por mais tempo do que deveria.

— Cecília, você precisa dormir — murmurei para mim mesma.

Definitivamente, estava precisando descansar.

HARRY NARRANDO

Na manhã seguinte, fui informado pela governanta de que meu pai e Luiza haviam saído para uma viagem de cruzeiro.

Quarenta dias em alto-mar.

Quarenta dias sem precisar ouvir os discursos do meu pai.

Não que nossa convivência fosse boa antes disso. Na verdade, nunca tivemos uma relação muito próxima. Mesmo quando minha mãe estava viva, ele sempre foi um homem distante, pouco demonstrativo e difícil de compreender.

Minha mãe costumava dizer que ele tinha um jeito complicado de demonstrar sentimentos.

Talvez ela estivesse certa.

Naquele dia, como não teria aula, resolvi ficar na sala, aproveitando o silêncio da casa.

Estava distraído com o celular quando ouvi passos na escada.

Levantei os olhos.

Era ela.

A garota que havia chegado na noite anterior.

Usava uma roupa simples, tinha os cabelos arrumados e uma expressão tranquila. Não consegui evitar reparar em sua beleza.

Ela percebeu que eu estava olhando e sorriu discretamente.

— Oi! Você deve ser o Harry, não é?

Retirei os olhos do celular.

— Depende. Quem está perguntando?

Ela soltou uma risadinha.

— Cecília. A filha da sua madrasta.

— Estou sabendo. Você é a intocável.

Ela arqueou as sobrancelhas, claramente surpresa.

— Intocável? Por quê?

Dei de ombros.

— Sei lá. Meu pai praticamente fez um discurso para eu manter distância de você.

— Entendi. Então você recebeu uma espécie de aviso?

— Pode chamar assim.

Ela se aproximou do sofá e sentou na outra ponta.

— Bom, acho que não precisamos transformar isso em um problema. Eu não tenho intenção de atrapalhar sua vida.

— Ótimo. Porque também não estou procurando companhia.

Cecília sorriu de lado.

— Nossa, você é sempre simpático assim ou estou tendo um tratamento especial?

Soltei uma risada involuntária.

— Você fala bastante, hein?

— E você parece ter esquecido como conversar com as pessoas.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

Talvez aquela garota não fosse tão previsível quanto eu havia imaginado.

— Você não parece ter medo de mim.

— Deveria?

— Não sei. Talvez.

Ela inclinou a cabeça, estudando meu rosto.

— Harry, eu acabei de chegar. Não conheço sua história e não pretendo julgar você. Mas também não vou ficar andando pela casa com medo de conversar com alguém.

A resposta me pegou desprevenido.

Havia alguma coisa naquela garota que despertava minha curiosidade.

E isso era justamente o que eu deveria evitar.

Alguns dias se passaram, e começamos a nos encontrar com frequência pelos cômodos da casa. Às vezes trocávamos algumas palavras, em outras ocasiões apenas nos cumprimentávamos.

Até que, certa tarde, acabamos sozinhos na sala.

Cecília estava organizando alguns livros sobre a mesa quando me aproximei.

— Você gosta mesmo de ler?

Ela levantou os olhos.

— Gosto. Por quê?

— Curiosidade. Sempre que passo pelo seu quarto, tem um livro diferente.

— E você costuma reparar no que acontece no meu quarto?

Sorri discretamente.

— Talvez.

Ela balançou a cabeça, divertida.

— Você é muito convencido.

— E você gosta de provocar.

— Só quando a pessoa merece.

A conversa terminou em risadas, mas o silêncio que veio depois pareceu diferente.

Olhei para ela. Cecília sustentou meu olhar por alguns instantes, até que desviou os olhos, sorrindo timidamente.

— Harry...

— O que foi?

— Você não precisa fingir que não gosta de conversar comigo.

Aquela frase me fez sorrir.

— Talvez eu goste um pouco.

Ela se aproximou para pegar um livro que estava ao meu lado. Nossos braços se tocaram, e, por um instante, nenhum dos dois se afastou.

Olhei para seus lábios e depois para seus olhos.

— Posso te beijar?

Cecília ficou em silêncio por alguns segundos. Então, sorriu e respondeu:

— Pode.

Aproximei-me devagar, dando a ela tempo para mudar de ideia. Quando nossos lábios se encontraram, percebi que aquela aproximação não seria tão simples quanto eu havia imaginado.

O beijo começou tímido, mas logo ganhou intensidade. Quando nos afastamos, ela permaneceu perto, com um sorriso que parecia denunciar sua satisfação.

— Isso foi inesperado — comentou.

— Para mim também.

— Seu pai não ficaria nada feliz se soubesse.

Passei a mão pelos cabelos, soltando uma risada curta.

— Não vamos pensar nele agora.

Cecília me olhou com uma expressão séria.

— Harry, não quero ser motivo de uma guerra dentro desta casa.

— Nem eu quero isso.

Naquele momento, eu não tinha respostas para o que estava acontecendo. Só sabia que a garota que eu deveria manter distante estava começando a ocupar meus pensamentos.

HARRY NARRANDO

Naquela noite, meus amigos passaram algumas horas em casa. Estávamos reunidos na sala, conversando sobre a faculdade e os trabalhos que precisávamos entregar.

Quando finalmente resolveram ir embora, já passava das dez.

Subi para tomar banho e, ao sair do banheiro, percebi que a porta do quarto de Cecília estava entreaberta.

Ela estava sentada na cama, usando uma camisola confortável e lendo um livro.

Bati levemente na porta.

— Posso entrar?

Ela levantou os olhos.

— Pode. Aconteceu alguma coisa?

— Não. Só queria conversar.

Cecília fechou o livro e o colocou sobre o criado-mudo.

— Sobre o quê?

Aproximei-me, mantendo uma distância respeitosa.

— Sobre nós.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Harry, acho que estamos entrando em um terreno complicado.

— Também acho.

— Sua família acabou de começar uma nova fase. Minha mãe está feliz, seu pai está tentando reconstruir a vida e não quero que uma situação entre nós estrague tudo.

Sentei na poltrona próxima à cama.

— Você acha que eu não pensei nisso?

— Acho que você pensa bastante, mas às vezes prefere agir antes de entender o que está sentindo.

Soltei uma risada discreta.

— Está me conhecendo rápido demais.

Ela sorriu, mas logo ficou séria novamente.

— Não quero que isso seja apenas uma aventura escondida, Harry.

Aquelas palavras me fizeram refletir.

Eu estava acostumado a não levar muitas coisas a sério. Entretanto, Cecília parecia enxergar além das minhas provocações.

— Não sei o que vai acontecer daqui para frente — respondi com sinceridade. — Mas não quero tratar você como se não significasse nada.

Ela abaixou os olhos por um instante.

— Então precisamos ter cuidado.

Aproximei-me e segurei sua mão, esperando sua reação. Cecília entrelaçou os dedos nos meus.

Naquela noite, trocamos mais alguns beijos e conversamos até tarde. A proximidade entre nós acabou nos levando a uma intimidade que nenhum dos dois havia planejado tão cedo. O restante daquela noite ficou guardado entre quatro paredes, sem promessas precipitadas.

Quando amanheceu, percebi que alguma coisa havia mudado.

Eu ainda era o mesmo Harry, com minhas mágoas, minhas dificuldades e minha resistência em aceitar aquela nova família.

Mas agora havia Cecília.

E isso poderia complicar absolutamente tudo.

— Você está pensando demais — ela comentou, percebendo minha expressão.

— Talvez.

— Não precisa transformar uma noite em uma tragédia.

Olhei para ela.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não disse que seria fácil. Só acho que precisamos descobrir o que queremos antes de começar a sofrer pelo que ainda nem aconteceu.

Fiquei em silêncio.

Ela tinha razão em uma coisa: o futuro ainda não havia chegado.

Mas uma certeza começou a se formar dentro de mim.

Quando meu pai voltasse daquela viagem, aquela casa talvez já não fosse a mesma.

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