
Subaquático: A Luna Silenciosa
Karima Saad Usman · Atualizando · 219.2k Palavras
Introdução
Parecia destino. Parecia resgate. Parecia o momento em que o universo finalmente a escolheu.
Mesmo com a desconfiança agarrada à proposta, Meadow se permitiu acreditar. Ela entrou naquele casamento às cegas, na esperança de que o amor preenchesse os espaços silenciosos de sua vida muda e sem cor.
Mas a verdade chega depressa — e cruel.
O Alfa nunca pediu por ela. Nunca a quis. Luna Amber armou tudo sem o consentimento dele, movida por motivos egoístas que Meadow não conseguiu enxergar até ser tarde demais. O que deveria ter sido terno e sagrado vira uma jaula, e Meadow fica presa num pesadelo do qual não consegue acordar.
Capítulo 1
A casa parecia quieta demais para uma manhã como aquela.
Meadow estava sentada no meio da grande escadaria de carvalho, com as costas apoiadas no corrimão, enquanto ouvia o murmúrio baixo de vozes vindo da sala de estar. As vozes dos pais, suaves, tensas, à espera de algo. E uma outra voz… mais grave, mais forte, inconfundivelmente carregada de autoridade.
A Luna.
A Luna da Matilha Whitewood estava sentada na sala de estar da família dela, discutindo alguma coisa que, infelizmente, dizia respeito a Meadow.
É claro que eles sabiam que ela estava na escada. Meadow sempre ficava ali. Sempre em silêncio. Sempre invisível. As pessoas já nem se davam ao trabalho de fingir que ela não estava ouvindo; simplesmente falavam ao redor dela, através dela, por cima dela. Ela não representava ameaça, não oferecia opinião e não tinha voz alguma.
Literalmente.
Ela era a única filha de Tamar e Blake Clearwater: uma morena bonita, de olhos azuis suaves como os de uma corça e pele de porcelana. Por todos os padrões naturais, deveria chamar atenção, despertar interesse, provocar admiração. Mas beleza não significava nada quando a sua voz tinha sido roubada antes mesmo de você poder defendê-la.
Roubada. Perdida. Silenciada.
Chamassem do que quisessem, nenhum deles sabia por que a voz de Meadow tinha desaparecido — só sabiam que nunca voltou.
Seus pais gastaram fortunas com curandeiros, médicos da mente, xamãs, bruxas, ervas, feitiços, rituais. Meadow suportou mais exames do que qualquer criança deveria, cada um prometendo respostas, cada um terminando com a mãe soluçando contra a camisa do pai, enquanto Meadow ficava quieta, entorpecida demais para chorar de novo.
No fim, desistiram.
No fim, todo mundo desistiu.
As lágrimas dela, que antes divertiam quem a atormentava, deixaram de ter graça. O silêncio se tornou previsível. E o mutismo, antes considerado seletivo, se degradou em sussurros sobre um defeito biológico, uma falha que a Deusa da Lua teria talhado nos ossos dela.
Agora, aos vinte, ela era o fantasma da matilha.
Não odiada. Não intimidada.
Só… esquecida.
As pessoas passavam por ela como se fosse feita de névoa. Nenhum vínculo mental. Nenhuma resposta. Meadow conseguia receber conexões, mas nunca enviar. Era um buraco na teia da consciência da matilha, presente e ao mesmo tempo inalcançável.
Uma loba sem voz.
Uma membro da matilha sem valor.
Os colegas dela já estavam marcados, formando vínculos, construindo lares, se preparando para o futuro. Meadow permanecia exatamente onde sempre esteve: sozinha no canto silencioso da própria existência, vendo a vida seguir sem ela.
Ela tinha aceitado aquele destino. Em paz, até. Nunca esperou alegria, nem amor, nem parceria. Não esperava nada, e nada raramente decepcionava.
Mas aquilo incomodava a mãe dela.
Tamar Clearwater passou anos tentando chocar Meadow para fazê-la falar de novo. Banhos de gelo. Barulhos repentinos. Tentativas emocionais. Até quando Meadow ganhou sua loba, os pais se agarraram à esperança de que a voz através do vínculo mental rompesse o que quer que a prendesse.
Mas a tentativa falhou.
Todas as tentativas falharam.
O lobo dela permanecia preso atrás da mesma barreira abafada.
Então por que, justamente hoje, a Luna estava sentada com os pais dela?
Meadow se inclinou um pouco para a frente, agarrando a borda da escada, enquanto a voz da Luna ficava mais nítida.
“…e, é claro, acreditamos que ela é a escolha adequada. Meu filho não vai se opor.”
O filho dela?
Joseph?
Tinha que ser Joseph!
A respiração de Meadow travou.
Joseph McCloud, o futuro Alfa de Whitewood.
O coração dela falhou dolorosamente e, em seguida, disparou.
Não. Isso não podia estar certo. Ela devia ter ouvido errado. Por que a Luna viria aqui, à casa dela, falar com os pais dela, com ela, para discutir algo envolvendo Joseph?
Toda loba não acasalada da alcateia praticamente declarara guerra pela chance de chamar a atenção de Joseph. As garotas tramavam, conspiravam e se exibiam como oferendas, esperando ser escolhidas.
Ele era bonito, poderoso e destinado a liderar Whitewood com a força de sua linhagem.
E Meadow?
Meadow era a garota muda.
A sombra silenciosa da alcateia.
Um acessório de pena.
Então, quando a frase seguinte da Luna flutuou até ela, o sangue de Meadow virou gelo.
“Meu filho vai se casar com Meadow.”
Casar.
Com ela.
Um suspiro suave separou os lábios de Meadow — silencioso, é claro —, mas agudo o bastante para ecoar dentro da mente dela.
Ela pressionou uma mão trêmula contra o peito.
De início, pensou se não era uma piada cruel. Uma pegadinha doentia. Talvez alguma das garotas tivesse manipulado aquilo, esperando humilhá-la em público. Mas não; a voz de Tamar era calorosa, grata, tremendo de alívio.
— Oh, Luna. A senhora nos honra. Somos profundamente gratos.
O pai de Meadow entrou na conversa, orgulhoso.
— Nossa filha vai servir Joseph muito bem. Ela é obediente, disciplinada e gentil.
Obediente.
Disciplinada.
Gentil.
Muda.
O estômago de Meadow se revirou.
A Luna queria ela, ela, para se tornar a futura Luna de Whitewood?
Que loucura era aquela?
Ela não seria capaz de comandar guerreiros. Não seria capaz de se dirigir a uma multidão, orientar as mulheres, dar ordens ou ficar ao lado do Alfa com a autoridade que se esperava de uma Luna.
Ela não conseguia falar.
Como poderia liderar sem voz?
As perguntas se atropelavam na mente dela, chocando-se contra a esperança frágil que, devagar, perigosamente, começava a florescer em seu peito.
Porque, sentada naquela escada, com as palmas úmidas, o coração desgovernado, os sentidos zumbindo, ela sentiu algo que não sentia havia anos:
Possibilidade.
Talvez a vida dela não estivesse condenada a ser vivida nas sombras.
Talvez a Deusa da Lua não a tivesse abandonado afinal.
Talvez, só talvez, estivessem lhe oferecendo um caminho que nunca fora destinado às outras.
Sentada ali nos degraus, invisível como sempre, Meadow se permitiu respirar, tremer, ousar.
Pela primeira vez na vida, ela não se agarrou à descrença.
Ela a acolheu.
Ela acolheu o impossível.
Ela acolheu a coisa extraordinária que a vida acabara de colocar em suas mãos silenciosas e trêmulas.
Um futuro.
Um companheiro.
Um lugar.
Um casamento.
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